sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Histórico


Puyanawa



Pano
História do contato
A partir das duas últimas décadas do século 19, os territórios indígenas ricos em caucho e seringa, situados na região banhada pelos rios Juruá e Purus, foram violentamente invadidos por grupos de caucheiros, seringueiros e seringalistas.
No ano de 1888 foi iniciada a exploração por não-índios do rio Moa, afluente do Juruá. Quatro anos depois, todo o rio, inclusive seu braço principal, chamado Azul, encontrava-se povoado pelos exploradores da região. É nesta época, 1893, que surgem as primeiras notícias sobre a presença de índios de língua Pano no Paraná dos Moura e no rio Moa. Alguns anos depois, em 1905, o prefeito do Alto Juruá, Gregório Taumaturgo Azevedo, informou sobre a existência de aldeamentos nas vertentes do Moa.
O rápido avanço das atividades de exploração da borracha nesta região levou à eliminação de grande parte da população nativa. Alguns grupos, à medida que tinham seus territórios ocupados, abandonavam suas casas e roçados e procuravam refúgio nas cabeceiras dos rios ou em áreas ainda inexploradas. É o que se percebe a partir da leitura da carta do Coronel Mâncio Lima, na qual afirma que desde 1900, quando iniciou a exploração de suas propriedades, vinha tentando estabelecer contato com os índios que habitavam as terras entre o Paraná dos Moura (ou da Viúva) e o rio Moa sem, no entanto, obter resultados satisfatórios. Em carta enviada ao SPI (Serviço de Proteção aos Índios), em 1913, informou que seu intuito era catequizá-los.
[José Carlos Levinho, 1984]
Primeiros Contatos
A primeira tentativa de contatar os Puyanawa foi em 1901, depois que os índios levaram pertences de seringueiros da região. O Coronel Mâncio Lima organizou, então, uma expedição que contou com a participação de três indígenas. Durante onze dias percorreram a mata à procura dos índios. Não conseguiram achá-los, embora tenham percebido vestígios recentes todos os dias. Encontraram treze grandes roçados e cinco barracões onde deixaram presentes.
Em 1904, os índios voltaram a entrar nas casas dos seringueiros e pegaram ferramentas, roupas etc. Desta vez alguns foram localizados em um varadouro e não conseguiram fugir. Estes ensinaram o caminho até a aldeia, mas quando chegaram, ela já estava vazia. Dez dias depois, em uma nova tentativa, depararam com a aldeia queimada.
No ano de 1911, Antonio Bastos, funcionário do SPI, acompanhado do irmão de Mâncio Lima, de cinco índios do alto Moa, um mateiro e outras pessoas, tentaram localizar os Puyanawa. Desta vez encontraram apenas grandes roçados e malocas vazias.
Resolveram então subir o rio Juruá com o objetivo de trazer alguns Yaminawa para auxiliá-los na atração dos índios, mas não obtiveram êxito. No final do mesmo ano, foi organizada uma nova expedição, desta vez bem sucedida, em que passaram a noite entre os Puyanawa. Após isso, o Coronel Mâncio Lima solicitou apoio governamental para catequizar os índios que há dez anos estavam no centro de seu seringal.

Segundo os velhos, um pouco antes de serem contatados, os Puyanawa haviam se dividido porque o número de pessoas tinha aumentado. Um grupo permaneceu na cabeceira do igarapé Preto afluente do Paraná dos Moura e o outro, chefiado pelotuxaua Napoleão, dirigiu-se para o Riozinho, afluente do rio Moa. Aqueles que ficaram no Igarapé Preto foram localizados pela equipe de atração dirigida por Antonio Bastos. Os índios contam que estavam dentro da maloca quando foram surpreendidos com gritos na sua língua, para não correrem. As duas portas da maloca foram cercadas, mas as mulheres, assustadas, conseguiram fugir levando quase todas as crianças. Os homens, no outro dia, foram buscá-las na mata. Algum tempo depois foram todos conduzidos para o Igarapé Bom Jardim, afluente do Moa, onde fizeram dois roçados. Ficaram neste lugar apenas um ano, sendo em seguida transferidos para o igarapé da Maloca, na Fazenda Barão do Rio Branco.
No ano de 1913, o Coronel Mâncio Lima foi informado por intermédio de um seringalista do Riozinho sobre a presença de índios na região. Foi enviada uma expedição que desta vez contou com a participação dos Puyanawa. Conseguiram atrair o grupo de Napoleão, que também foi levado para o igarapé da Maloca.
Sobre a "pacificação" dos índios no Departamento do Juruá, o Prefeito Rego Barros, informou em seu relatório de 1914 que Antonio Bastos "[...] trouxe mais de oitocentos silvícolas a relação amistosa com os seringueiros, permitindo o alargamento do campo de ação da industria extrativa e o terceiro [Mâncio Lima] que tinha o trabalho dos seus seringais perturbados por indígenas vizinhos, conseguiu após um esforço de mais de 12 anos, com vultoso dispêndio de numerário, aproximá-los com o auxílio de Antonio Bastos, localizando na sua fazenda Barão do Rio Branco, no rio Moa, 150 indivíduos da tribo Poyanawa, apresentando alguns belos tipos físicos, vários deles com estatura fora do comum entre os indígenas".
Os índios permanecem na fazenda Barão do Rio Branco por pouco tempo, pois não se adaptaram ao novo local por diversos motivos, um dos quais o trabalho forçado, o que ocasionou a fuga do grupo. Apenas um homem não conseguiu fugir por estar no igarapé Bom Jardim. Este índio foi obrigado a seguir o rastro do grupo que se dividiu em três, mas mesmo assim, foram localizados novamente. Nesta captura o tuxaua Napoleão foi assassinado a tiros friamente pelo capanga de Mâncio Lima. Após a morte do líder, o grupo dispersou-se, atravessando o rio Azul.
Os outros dois grupos foram encontrados e levados de volta para o seringal. Finalmente o grupo disperso foi localizado por acaso, pois os Puyanawa utilizaram vários artifícios para confundir o rastreador. Depois de capturados os homens foram açoitados e reconduzidos para o igarapé da Maloca. Logo que chegaram, uma epidemia de sarampo dizimou grande número de índios. Aqueles que sobreviveram, foram transferidos para a Colocação Ipiranga.
[José Carlos Levinho, 1984]
Período do "cativeiro"
De 1915 a 1950 foi o período que os índios denominaram de "cativeiro". Os homens foram separados de suas mulheres e enviados para as colocações de seringa onde trabalhavam durante todo o ano: no verão cortavam seringa nas margens do rio Moa e no inverno, nos "centros" do seringal. As mulheres e os velhos ficavam encarregados das atividades agrícolas. Plantavam grandes roçados de milho, mandioca, arroz, cana-de-açúcar e feijão. Eram obrigados também a fazer longas caminhadas transportando paneiros de farinha e de açúcar e as pélas de borracha.
Somente no final da década de 1930 as mulheres foram dispensadas dos trabalhos na lavoura e receberam permissão para morarem com os homens nas colocações espalhadas no seringal.
Esse período é muito vivo na memória dos velhos puyanawa. Viveram como verdadeiros escravos do Coronel Mâncio Lima, proprietário do seringal Barão do Rio Branco. Não tinham direito a nada, nem sequer a uma parte ínfima do seu antigo território. Foram completamente expropriados de suas terras. Passaram a fazer todos os tipos de trabalho braçal e pesado no seringal Barão e em troca recebiam a alimentação diária e umas poucas mudas de roupas.
De fato foram os Puyanawa que desenvolveram o seringal Barão, construindo estradas carroçáveis, ligando a sede deste seringal à Vila Japiim e daí à cidade de Cruzeiro do Sul. Movimentaram os engenhos de cana-de-açúcar e as casas de farinha, derrubaram as matas para abrir roçados, canaviais e pastos para o gado, abriram as estradas de seringa na mata e fabricaram muitas pélas de borracha.
A decadência do Seringal Barão do Rio Branco, após a morte do Coronel Mâncio Lima em 1950, os Puyanawa foram liberados, finalmente, do regime de servidão a que foram submetidos.
Somente depois disso os Puyanawa fizeram roçados para as suas famílias, algo que até então eram impedidos de fazer. Continuaram produzindo borracha, apesar da crise desta economia da região, mas ainda eram obrigados a pagar pelo uso das estradas de seringa aos herdeiros de antigo dono do seringal. O pagamento da “renda das estradas de seringa” significava que os Puyanawa não tinham direito a nenhuma parte de seus antigos territórios e assim continuavam a viver em suas terras como intrusos.
Apenas em 1977 a Funai realizou os primeiros estudos para identificação da Terra Indígena Poyanawa, que foi homologada em 2001.
[Terri Valle de Aquino, 1985]

Um comentário:

  1. Uma das vantagem de se estudar biologia e conhecer essa mata linda. Não vejo a hora de ir. Parabéns pelo blog

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